A esta visão otimista se contrapõe a sensação oposta de que a Internet estaria induzindo a um pensamento raso, transformando a leitura de um livro em uma verdadeira proeza.
Nas redes sociais há mais relacionamentos entre autorretratos ou máscaras enquadrados em um algoritmo e menos vínculos reais e duradouros. Que sentido tem esse frenesi de relacionamento? Solidão em tempos de destruição de vínculos? Recriação de pertencimentos a qualquer preço, ainda que virtuais e fugazes? Ou outra coisa ainda mal compreendida?
Com seus riscos e oportunidades, a Internet é o grande enigma do mundo contemporâneo. Tenho esperança de que seremos capazes de decifrá-lo antes que essa Esfinge nos devore.
É assustadora a hipótese de que a Internet esteja provocando uma involução – já que nem toda adaptação ao ambiente tecnológico significa um salto nas capacidades humanas. A destruição do pensamento seria o triunfo último da esperteza sobre a esperança.
Segundas vidas, identidades em caleidoscópio, quem é o outro ,que consistência tem sua existência na galáxia Internet. Que ética emergirá dessas vidas paralelas, deletáveis e indolores que, no entanto, atravessam e transformam o mundo real?
É tempo de concluir e quero fazê-lo falando do Brasil e a partir do Brasil. Relembro o conceito de ética que me serviu de fio condutor: ética como elaboração por cada um em diálogo com os outros dos valores norteadores de escolhas que, no cruzamento de um tempo e de um espaço, dão sentido a uma biografia, a uma sociedade, a um projeto de humanidade.
Estamos habituados a olhar o Brasil pela ótica da anti-ética, da tragicomédia que a política, reduzida aos políticos, nos oferece cada dia. Esse equívoco tem o risco de sugerir que nos tempos que correm, em nosso país, há pouco espaço para uma regeneração de nosso tecido social esgarçado pela corrupção metastática.
Há quem afirme que a corrupção, mais que um fenômeno de degradação política, é um traço cultural dos herdeiros de Macunaíma.
Temo que isso seja uma injustiça que fazemos a nós mesmos. Essa não é a cara do Brasil. Escândalos não são a cara do Brasil. São a plástica mal sucedida que encobre com alguns traços de modernidade, com as belas curvas de Brasília, o que de mais esclerosado sobrevive na política.
Creio que é na própria cultura brasileira que seja possível encontrar os bons exemplos, argumentos que falariam alto, em nome de valores, num debate global sobre ética. Aqui mesmo, neste palco, convidado pela Academia Brasileira de Letras, Edgar Morin investiu suas esperanças em indivíduos e culturas que, como células-tronco, tivessem o poder de reavivar os tecidos mortos da sociedade global.
Adaptar nosso tempo à ética significa para nós, brasileiros, identificar na nossa cultura, na nossa sociedade, as células-tronco que podem ser regeneradoras.
Certamente não irei buscá-las no sistema político. Consigo localizá-las lá onde a cultura brasileira aponta para a solidariedade. Prefiro pensar nos muitos que socorreram os flagelados da Região Serrana do Rio de janeiro e não nos poucos que roubaram os recursos para seu socorro. Aqueles foram muito mais numerosos do que estes.
Prefiro pensar na tolerância religiosa, nosso pendor a ver o mundo pela ótica do sagrado, reconhecendo as diferentes formas de espiritualidade sem que o ódio nos divida. Um forte exemplo e argumento da cultura brasileira quando no campo argumentativo global estão em tela de juízo os fundamentalismos e dilaceramentos de origem religiosa. Que todos os deuses do Brasil assim nos conservem.
Prefiro pensar no Brasil mestiço que, embora marcado pelas seqüelas da escravidão, com todas as suas abissais injustiças, tenta corrigir-se sem perder o orgulho de sua mestiçagem. Mestiço não só na infinita gama de tonalidades de peles mas também de origens, de sobrenomes que atravessaram todos os mares para desembarcar aqui e se fazerem brasileiros. Um forte argumento e exemplo do Brasil quando, mundo afora, as fronteiras se fecham ao diferente e ao estrangeiro.
Penso na solidariedade familiar, qualquer que seja a configuração da família, que ampara os mais fracos e que se expande, por vezes, muito além dos laços de sangue como uma maneira nossa de conviver.
Penso na arte brasileira, antropofágica, ávida do mundo inteiro, com sua extraordinária capacidade de compreensão de outras sensibilidades que acaba por fazer suas e que devolve ao mundo como contribuição generosa e original a uma estética contemporânea.
O Brasil é um microcosmos da sociedade global e, sob muitos aspectos, exemplar.
Não quero chorar sobre as mazelas do Brasil nem descrever o que os jornais nos contam todo dia para nosso desgosto e horror. Não é novidade para ninguém que a falta de ética na política está contaminando outros setores da sociedade já que, ela também exemplar, faz escola e impede que se faça escolas.
Prefiro identificar o que no Brasil está vivo e é regenerador da ética.
Há de ser bebendo na fonte do que temos de melhor, e que é muito, no vigor da nossa sociedade que construiremos novos padrões de convivência.
Muitos se orgulham - e eu também - dos progressos do Brasil no campo econômico. Repete-se à boca pequena que estamos nos tornando uma potência, tendo voz no jogo de poder mundial. Possa o Brasil, agora que tem voz, falar de si, desse melhor de sua cultura, como nossa contribuição a uma ética global de reconhecimento e aceitação do outro.
Se fui exageradamente otimista, reservo-me o direito a ter eu mesma, na minha linguagem e nos meus conceitos, meus reflexos de fé e esperança.
O corpo, âncora em que todos nos reconhecíamos, tornou-se uma natureza incerta, incerta como é sempre a História, que se abre em possibilidades múltiplas. O que se torna possível atravessa imediatamente o campo do desejo e deixa no ar a pergunta: tudo que é possível é desejável? Que decisões são de caráter individual, quais afetam interesses coletivos?
Decisões sobre nascimento, sexualidade e morte solicitam das sociedades contemporâneas uma construção de valores no plano coletivo similar à que orientou a tomada de decisões sobre questões da vida privada. O corpo humano é um bem negociável como outro qualquer?
Órgãos, células, sangue, genes podem constituir um mercado inesgotável e assustador em que esses "produtos" derivados do corpo humano se transformem em bens vendáveis. A clonagem de seres humanos, a fabricação de tecidos ou órgãos possibilitada pelas células-tronco, clamam por um balizamento que preencha o vazio de normas morais.
Vivemos um problema maior, que não é só brasileiro, um problema do nosso tempo. A ciência avança bem mais rápido em suas descobertas do que progride moralmente o espírito humano.
O caso da clonagem é emblemático. Coexistem no tempo a incrível performance da ciência que desvenda o código da vida, permitindo a sua recriação, e os mais medíocres e baixos instintos que, em torno da clonagem, se vêm manifestando.
Em suma, como espécie, não estamos à altura de nós mesmos e se a clonagem é uma aventura perigosa, a não ser tentada, não é só por causa dos clones e sua aura de mistério, mas pela ameaça dos que não são clones e que expõem claramente suas sinistras intenções mercantis face à nova técnica. Daí que a interdição da clonagem reprodutiva seja, acima de tudo, uma precaução social, que há de ser global e a sua transgressão um crime contra a humanidade.
Os medos que as novas biotecnologias inspiram só podem ser enfrentados com progressos no campo do espírito tão radicais quanto às possibilidades de intervenções no corpo. Não há por que atribuir às biotecnologias em si um gosto faustiano de pacto com o diabo. Esse gosto não é inerente a elas, é próprio dos espertos que as manipulam com intenções de lucro.
Comissões de bioética, compostas por cientistas, juristas, religiosos e filósofos, assumiram a tarefa de pensar e deliberar sobre estas questões preenchendo vazios suscetíveis de abrigar abusos e arbítrios. Estas instâncias passaram a desempenhar no espaço público o papel que já vinha sendo cumprido pelos círculos de confiança no espaço privado.
São uma projeção na escala da sociedade de uma consciência individual alargada. Restabelecem a ética da discussão. São portadoras de esperança.
O que nos faz lembrar o mito de Pandora, aquela, a da caixa que continha todos os males, que ela, curiosa, deixou escapar. Também ela nascida de um processo artificial, fabricada com a argila de Hefaísto, a beleza de Afrodite, a astúcia de Hermes, o sopro vital de Atena, quis saber demais, soltou as misérias guardadas na caixa.
O que nos consola, se consolo há, é que, no fundo da caixa, soterrada por todos os males, lá estava a esperança que, mesmo esmagada, custando a sair, a duras penas também escapou.
Creio que a preservação ou não da dignidade humana se decidirá doravante entre esperanças e espertezas. A esperança que, por último, escapou da caixa de Pandora é o nosso melhor antídoto contra as espertezas de todo tipo que nos assolam.
Que esperança é essa?
Tem razão Edgar Morin quando alerta que não se trata de encontrar novos princípios morais, de elaborar uma ética adequada ao nosso tempo. Trata-se de regenerar a ética não para que se adapte ao nosso tempo mas ,visto a carência de ética de nosso tempo, adaptar nosso tempo à ética. O que está em jogo hoje é a preservação da dignidade humana, a busca de um balizamento ético que ilumine os debates e oriente a ação sobre os grandes desafios globais.
Se a gênese da ética constituiu um acontecimento inaugural da espécie humana a chegada ao sentimento de cidadania planetária talvez tenha igual importância, talvez venha a ser o próximo grande salto evolutivo que transformará, enfim, a espécie humana em humanidade.
A afirmação dos direitos do indivíduo frente ao próprio Estado, quebrando o primado da soberania nacional, e o reconhecimento de uma ‘comunidade de destino’ para os povos da terra colocam a ‘humanidade como sujeito’ e a ‘fundação do mundo’ como horizonte histórico.
Exemplo eloqüente é o da universalidade dos direitos humanos, o debate entre culturas para definir o sentido dessa universalidade que aponta para o que o Acadêmico embaixador Celso Lafer chamou, em uma expressão feliz, um ponto de vista da humanidade.
Novos atores entram em cena, inventando novas formas de participação, argumentação e deliberação.
Lembro-me de minha surpresa ao receber, exilada em Genebra no início dos anos 70, uma carta me convidando a escrever ‘cartas de liberdade’. A mensagem lembrava que todos já havíamos escrito cartas de amor, de pêsames, de recomendação ou de pedido de emprego. Tratava-se agora de enviar pelo correio cartas a chefes de estado, juízes e diretores de prisões pelo mundo afora denunciando abusos contra os direitos humanos praticados contra presos políticos.
Este gesto singelo ao alcance de todos foi a estratégia da organização Anistia Internacional para envolver o maior número possível de pessoas na luta contra a tortura e os Gulags que então proliferavam de norte a sul do Equador. Foi naquele momento – antes mesmo de ter cometido seus crimes – que Pinochet começou a ser condenado...
Anos mais tarde aparecem os ‘barcos da liberdade’, acolhendo os refugiados de todos os conflitos à deriva nos mares em busca de um porto seguro. Esta iniciativa da organização Médicos sem Fronteiras introduz no direito internacional a figura original do ‘dever de proteção’ a populações em situação de risco extremo.
A estas formas de solidariedade através do espaço, por cima das fronteiras nacionais, se somou a forma inédita de solidariedade através do tempo, das gerações, em prol da preservação do planeta.
Em 1992, na noite que precedeu a abertura da Eco-92,a Cúpula da Terra sobre o meio ambiente, milhares de mulheres, do mundo inteiro, fizeram uma vigília na praia do Leme que intitulamos Celebração da Esperança.
Os documentos da época chamam de inaceitável o desequilíbrio da terra que sentimos hoje na disritmia das estações, na chuva que cai assassina, na desolação das florestas amputadas, na deriva dos pólos, no lixo sem sepultura, na morte do mar.
Falam do desencontro das gentes que sentimos hoje na invisibilidade do outro, no preço de cada gesto, na impiedade do mercado, na solidão dos continentes esquecidos, no desterro do sentido, na negação do sagrado, no silêncio do feminino, na timidez da esperança.
Alertam para o descaminho da vida na perversão da matéria, na industrialização da célula, no delírio da ciência, no exílio da ética.
No grupo organizador de que fiz parte havia uma queniana que, com outras mulheres de seu país, se abraçavam às arvores que iam ser cortadas e assim defendiam as florestas. Chamava-se Wangari Matthai e anos depois foi agraciada com o Premio Nobel da Paz.
Não por acaso, organizações ícones destas causas - Anistia Internacional, Médicos sem Fronteiras, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – viram suas ações reconhecidas pelo Nobel.
A fundação do mundo, alimentada por uma ética de solidariedade e responsabilidade, é um processo em curso que, tal como um universo em expansão, vai criando suas normas e instituições na medida mesma em que se expande por obra e graça da ação dos cidadãos.
A fundação do mundo é a vertente esperançosa dos que resistem às espertezas facilitadas pela globalização. Há quem veja na esperança resquícios de utopia. Sucessivos fracassos transformaram uma palavra que queria dizer uma sociedade ideal numa geografia imaginária, sinônimo de impossível.
O adjetivo utópico perdeu sua conotação de inédito, portador de esperança, e ganhou a de irrealizável, quiçá indesejável. Fico com Oscar Wilde que dizia: um mapa-mundi que não inclua a utopia não merece um olhar sequer porque deixa de fora um país em que a humanidade está sempre aportando. Uma vez no porto, olha em volta, vê um país melhor e enfuna as velas.
Na fundação do mundo coexistem o velho e o novo. O que se esforça por nascer e o que reluta em morrer.
Talvez nada exprima tão fortemente este paradoxo entre o velho e o novo do que a coexistência de uma opinião pública informada e ativa, a mídia alerta e a caducidade dos sistemas políticos cada vez mais distantes do cotidiano das sociedades.
Adaptando uma frase de Alain Touraine, diria que o espaço público se esvazia por cima, com a decadência irremediável das formas de democracia representativa, e se preenche por baixo, com a emergência de novas formas de participação e debate.
É cedo para avaliar o papel da Internet nessa participação e debate.
Aqui sim, cabe a palavra utopia em seu sentido etimológico. Esse não-lugar, esse mundo irreal tecido pela virtualidade, sem tempo nem espaço, sem espessura, onde cada um está em todo canto ao mesmo tempo, portanto em lugar nenhum, incorporou-se ao nosso cotidiano.
O relato entusiasta de sua incorpórea população, que descreve o mundo virtual como o espaço da liberdade, sem governo, sem centro, sem autoridade, torna pálida a ilha perdida de Thomas More.
Aí estaria se realizando o sonho da Biblioteca de Alexandria de reunir todo o conhecimento existente no mundo. Independentemente desses exageros e idealizações é possível que a Internet esteja - como disse Federico Mayor - desempenhando o papel de Ágora do século XXI . É o que parecem confirmar os jovens em revolta no mundo árabe e os indignados dos países europeus.
Foram as normas éticas que nos arrancaram da condição animal, que deram nobreza à aventura humana. A convivência construída sobre normas éticas não é um dom da natureza, é uma conquista permanente, uma criação cotidiana. É esse desvio da lei natural, muito mais do que qualquer progresso tecnológico, que nos faz humanos.
Sabemos todos que a memória ancestral da fera dorme em nós mas sabemos também que foi para domesticá-la que criamos a civilização.
Nesse sentido o vazio ético é um retrocesso civilizatório, um retorno ao embrutecimento.
Edgar Morin resume assim essa trajetória em busca de nós mesmos: a ética é uma emergência que como toda emergência depende das condições sociais e históricas que a fazem emergir. Mas é no individuo que se situa a decisão ética: cabe a ele eleger seus valores e finalidades. Já que escolher valores e viver no seu compasso ainda é o que dá sentido às nossas vidas
Um indivíduo e o seu outro, as balizas incontornáveis de um tempo e de um espaço, esses os condicionantes da opção ética, hoje uma árdua tarefa para quem já não se pode valer da segurança das certezas.
A perda de referências que nos acolhiam como certezas deixa ao relento todos aqueles que sem a obediência aos ensinamentos que a fé sustenta, não encontrando mais tampouco a âncora das ideologias, que, em troca do céu, ofereciam a utopia dos amanhãs que cantariam, estão condenados a construir sua própria ética.
Tampouco encontram a segurança das famílias tradicionais, onde o enredo da vida familiar se distribuía em papeis bem ensaiados. Esses enredos passaram por tantas vicissitudes, à deriva da realidade amorosa, são tantas as novas configurações familiares que hoje é difícil falar de família no singular. Esses papéis claramente distribuídos perderam sua força de convicção e por isso se representam hoje com todos os riscos da novidade e da improvisação.
Até meados do século passado, nascíamos herdeiros de normas que já nos esperavam como uma imagem impressa no espelho para nos dizer quem éramos ou como deveríamos ser. Religião, tradição e ideologias determinavam identidades que, de certa forma, traziam a marca de destinos não escolhidos.
Tempos em que uma verdade revelada, uma ordem imutável ou uma grande narrativa nos diziam como bem viver ou morrer. O sentido da vida, mesmo quando se encontravam pedras no meio do caminho, vinha dado como uma espécie de mapa que, se bem consultado, nos levaria às portas do paraíso, ao porto seguro da Razão, ou acertaria o nosso passo ao passo da História.
Qualquer que fosse a moldura, era uma proteção eficiente contra os descaminhos, o som e a fúria de uma história contada por um idiota ou contra a inconveniência de ter nascido, que tanto acabrunhava Cioran.
A herança de outras gerações, imperativa, nos protegia, pelo menos em certa medida, da angústia, da incerteza e da incompletude que afligem o indivíduo de hoje, errante em um mundo desencantado, condenado à autoria de seu próprio destino, contemporâneos que somos dessa espécie de mutação que nos deixa, ao mesmo tempo, órfãos e surpreendentemente livres .
Exilado do mistério, distante da tradição, descrente das ‘teologias de substituição’ ou ‘religiões laicas’ de que nos fala George Steiner, o indivíduo está condenado à liberdade de escolha, desafiado a construir a sua ética. O que não impede que muitos, por convicção e por livre escolha, pautem suas vidas por princípios religiosos ou princípios laicos de devoção a uma causa. O que prima é o direito de escolha.
Na vida cotidiana, tomamos decisões dificílimas na esfera íntima que implicam valores, noções de certo e errado. Esta elaboração, por penosa que seja, por cada um de seu código ético é o contrário mesmo da leviandade. São decisões via de regra longamente refletidas, tomadas em consulta com as pessoas mais próximas.
Paul Ricoeur define estes contextos de deliberação íntima como ‘círculos de confiança’ nos quais emerge uma ‘consciência individual ampliada’. Já não se age porque tem que ser assim mas porque, em diálogo com aqueles em quem confiamos, decide-se que assim seja.
A ética, em nossos tempos de transição, não é uma herança, é uma construção. Essa construção tem a delicadeza de um vitral, trabalho artístico capaz de agenciar fragmentos, extraindo deles um sentido e uma luminosidade
Esse processo virtuoso de afirmação da liberdade individual, de ampliação de direitos, foi atropelado nos anos 80 pela hegemonia no plano mundial de uma nova religião laica, uma ideologia invasiva fortemente centrada não no indivíduo mas no individualismo.
Num espantoso deslizamento de sentido, passamos do exercício da liberdade individual à exaltação do cada um por si e contra todos. A devoção ao deus-dinheiro passou a imperar sobre uma sociedade de consumo onipresente, em que é fácil reconhecer na opulência e arrojo arquitetônico dos grandes bancos as catedrais do tempo presente.
A economia ocupou o lugar da filosofia e da teologia, substituindo o bem agir pelo investir, a ação pelas ações. A ganância assumida e valorizada como medida de sucesso relegou a ética ao estatuto de ingenuidade e outorgou à criminalidade o estatuto de esperteza.
As escolhas que fazemos ao longo da vida dependem fundamentalmente daquilo a que atribuímos valor. Escolhemos uma coisa ou outra em função do que cada uma vale para nós. Os valores valem pelo que são.
Na lógica mercantil é diferente. Não se pergunta o que vale alguma coisa mas quanto vale. A existência do valor é relativa e conversível a uma moeda de troca, o dinheiro. Quando o valor no sentido econômico invade o campo dos valores que vêm de dentro de cada um de nós e cujo sentido independe do seu valor de troca, uma mudança de sociedade está em curso. Uma mudança para pior.
A sociedade de mercado atribui um preço a todas as coisas e torna invisível o que não anuncia o seu preço. Por definição, o que é gratuito não tem valor. Nesse rol se incluem os gestos de generosidade e solidariedade – a acolhida e cuidado para com os mais frágeis e vulneráveis - que não são passíveis de contabilização monetária.
A economia de mercado impôs sua lógica à sociedade, contaminando e corrompendo a ética de campos profissionais como a medicina, o ensino e a própria ciência. Transformados em produto, saúde, conhecimento, pesquisa caíram no círculo infernal da compra e venda, destruindo a confiança e gratidão que cada um de nós conheceu face a um médico, um mestre, um cientista .
O espetáculo confrangedor da degenerescência da política e da corrupção que se infiltra em todos os interstícios da vida pública não é certamente estrangeiro a esse primado do deus-dinheiro. Tudo isso em nome da sacrossanta racionalidade do mercado.
Ora, nada é mais irracional do que a decantada racionalidade dos mercados. Quando ficam nervosos, entram em pânico e arrastam tudo de roldão. A formatação desenfreada dos chamados derivativos ou ‘produtos estruturados’, miragem de fortuna oferecida aos incautos pelos espertos, nos levou à beira de um desastre de proporções inimagináveis cujo risco ainda é real e iminente.
Frente a tamanho desvario é uma exigência mínima de racionalidade a reconstrução de uma ética que nos devolva a esperança e nos livre e guarde dos espertos.
Foi no campo da ciência que emergiu, com maior nitidez a consciência da ameaça que a lógica do deus-dinheiro imprime ao mundo. Talvez pela gravidade das conseqüências que o vazio ético, nesse campo, possa trazer.
Porque os progressos das ciências são também os da nossa ignorância. São como velas que, numa catedral, menos iluminam do que dão a ver a amplitude da escuridão do que não sabemos.
Doar órgãos é um ato de liberdade que depende de uma decisão individual, inspirada pelos valores da gratuidade e generosidade.
Vender órgãos pelo melhor preço é a última volta de parafuso na lógica perversa do mercado.
Em um campo mais complexo, os avanços das biotecnologias, seu ineditismo, levantam questões que põem em jogo a dignidade humana na medida mesma em que apagam as fronteiras entre natureza e cultura dando ao corpo uma dimensão de transformação possível, introduzindo-o na história humana da Natureza.
A expressão ‘história humana da natureza’ foi cunhada por Serge Moscovici para quebrar a tradicional separação entre natureza e cultura, trazendo à luz as interações entre ciência, tecnologia e ambiente natural ao longo da nossa trajetória. Hoje ela se aplica às interações entre ciência tecnologia e o corpo humano.
Senhora Secretária Geral, Acadêmica Ana Maria Machado
Senhoras Acadêmicas, Senhores Acadêmicos,
Minhas senhoras e meus senhores,
Recebi como uma honra, o convite ,que agradeço, para participar do ciclo ‘Ética e cidadania em Tempos de Transição’ da Academia Brasileira de Letras.
Uma honra mas também um desafio que foi talvez temerário aceitar já que os tempos de transição que vivemos, contrariamente a outros momentos em que o futuro amadurecia lentamente e se desenhava com alguma nitidez, são tempos de aceleração histórica, que se apresentam como uma máquina desenfreada, embrenhando-se em alta velocidade em territórios que até então pertenciam à ficção científica.
Não se trata de uma banal passagem de uma geração a outra com seus desencontros e incompreensões. Trata-se, no espaço de uma biografia, da ruptura de referências estruturantes como território, família, trabalho, sexualidade, nascimento e morte.
Creio que estamos vivendo o privilégio e o risco de testemunhar não um tempo de transição mas uma mudança de era. Minha geração veio ao mundo quando o mal mostrara sua face diabólica em Auschwitz. Assistiu à desintegração do átomo e sua transformação em artefato nuclear.
Foi contemporânea da ruptura do paradigma milenar que separava o mundo dos homens e o mundo das mulheres. Assiste estarrecida à leitura do código genético e sua tradução em oportunidades e ameaças para a espécie, participa das angústias de um planeta que se reconhece vulnerável e finito.
Folheando recentemente um número especial da revista National Geographic fui surpreendida por uma lista de lugares imperdíveis a serem visitados ao longo da vida. Entre o Rio, Veneza, as pirâmides de Gizé e a muralha da China lá estava o Ciberespaço.
Os chamados internautas já se contam em bilhões. Há quem acredite que - se um dia vivemos no campo e depois nas cidades - hoje vivemos no ciberespaço. A vida real se vai desdobrando nesse outro mundo misterioso da virtualidade que incide sobre ela como um meteorito que se chocasse com o planeta.
Há razões de sobra de perplexidade e ela é tanto maior quanto aumenta a volatilidade e a fragmentação da informação deixando o desagradável sentimento de que temos acesso a tudo e não entendemos quase nada .
Um meteorito já pôs fim a uma era. Seremos nós os dinossauros de hoje? Que tempos de transição são esses em que estamos vivendo e que nos sucederão?
Jorge Luís Borges criou um lugar imaginário em que se negava o tempo: o presente era indefinido, o futuro não tinha realidade senão como esperança presente, o passado não tinha realidade senão como lembrança presente. Tinha razão. Passado e futuro estão no presente.
Daí ser impossível entender os tempos de transição sem referência ao passado e sem menção ao futuro.
Pensar a ética nos dias de hoje provoca uma estranha sensação de tentar entender um tsunami no momento mesmo em que se é varrido por ele.
Talvez provenha daí o sentimento de urgência, percepção de uma catástrofe à espreita e, portanto, necessidade de um esforço de compreensão ainda que acompanhado da consciência trágica da vulnerabilidade do pensamento frente à incerteza de um mundo que emerge, inédito e surpreendente.
No redemoinho das transformações científicas e culturais não é só a alma dos indivíduos que tenta não soçobrar. Nesses tempos de transição também as sociedades buscam elaborar uma ética e um sentido que lhes permitam sobreviver.
Não por acaso estamos aqui. O tema da ética é um dos grandes interrogantes do nosso tempo. Não por acaso uma instituição do porte da Academia Brasileira de Letras se debruça sobre ele.
Da microdimensão da célula à macrodimensão do mundo globalizado somos chamados a fazer opções em que a dignidade humana e a sobrevivência na terra estão em jogo.
Quer se trate das biotecnologias, do periclitante sistema financeiro global, do intrigante Ciberespaço, da agonia da democracia representativa, somos chamados a nos definir, pensar o certo e o errado, o justo e o injusto, fazendo permanentemente escolhas de caráter ético face a objetos e situações até então desconhecidos.
Quanto a nós, sujeitos dessas opções éticas, a sensação de deriva, de errância, a caducidade dos sistemas de valores, quando tudo se equivale e é efêmero, a perda de pertencimentos, tudo isso alimenta o sentimento de vazio e deixa uma carência, uma demanda de valores que iluminem a nossa convivência com o outro - próximo ou distante - que nos contempla.
Pois sendo a ética a mais eloqüente expressão da liberdade individual, na ética de cada um está, indelével, a presença do outro.
O rosto de que fala Emmanuel Levinas, aqueles a quem devemos a solicitude que Paul Ricoeur defende, o interlocutor ainda que discordante, fundamento da ética da discussão de Habermas.
O outro a quem Sartre atribuía a mesma liberdade que a si mesmo, ainda que isto pudesse se constituir no inferno. O outro que nega a nossa humanidade, como o oficial nazista que olha para Primo Levi como um sub-homem. O outro por quem sou responsável de Hans Jonas.
Nessa relação, eu e o outro, repousa nossa própria humanidade, já que a ética como capacidade de distinguir o certo do errado, o justo do injusto, assim como a linguagem, é a marca do humano.
Nada levaria a crer que tal atributo brotaria de nosso plasma instintual, nós que somos parte de uma natureza cujas leis predatórias não conhecem a compaixão. Não é certamente na Natureza que o homem buscou inspiração para incorporar, à sua evolução, as normas éticas e os juízos de valor que criamos.
Nos três bilhões de anos que precederam a aparição do homem na terra, a história natural da vida não registra piedade entre as espécies, cada uma lutando pela sua sobrevivência. Fomos nós que nos rebelamos contra a ordem natural. Fomos nós que chamamos de crueldade a destruição do mais fraco que a natureza aceita como seleção natural. Somos nós que conhecemos a compaixão diante do sofrimento.
Inventamos o conceito de direitos humanos - manifestação radical de solidariedade para com o outro, inclusive quando longínquo ou estrangeiro. Nas palavras do professor Jean Hamburger, biólogo e membro da Academia Francesa, “lapidamos a jóia do nosso espírito, a noção de direitos humanos, nossa decisiva afirmação, um salto na evolução”.
A iniciativa tem a aprovação do Vaticano: padres posam como modelos e ilustram calendário romano. A primeira edição foi publicada em 2004 e setores conservadores manifestaram-se contra a iniciativa alegando que o calendário poderia virar "objeto erótico". Mas é impossível não reconhecer que nas fotos há um "clima" de sedução, um charme oculto. No mínino, estética do belo. Não perguntem onde fica a paróquia desses padres. É confidencial!
"Jesus Dressed Up" é o nome do site que monta uma brincadeira para vestir Jesus na cruz. Não precisa saber inglês, é bem lúdico. Os mais puritanistas podem se chocar, afinal, o "vestir" Jesus está mais para baile de carnaval do que para uma cerimônia religiosa.
O lançamento do filme Anjos e Demônios, lotou duas salas de cinema, com diferença de uma hora na programação no mesmo shopping center, reunindo plateia eclética. O enredo e o ritmo desta narrativa policial envolvendo o assassinato de um cientista, a disputa histórica do Vaticano com as descobertas científicas e a atuação de uma sociedade secreta na eleição de um novo papa. O restante do sucesso deve-se a roteiro, produção e direção, somado aos atores, a la bella Roma como pano de fundo, à qualidade da fotografia e ao manejo da simbólica.
O enredo traz Robert Langdon (Tom Hanks), professor de simbologia em Harvard, e Victoria Vetra (Ayelet Zurer), filha do cientista italiano morto, que fazia parte da sociedade dos Illuminati, – os cientistas que contestaram as principais orientações da Igreja por séculos, sendo perseguidos desde os tempos de Galileu por terem idéias avançadas, inovadoras e baseadas em constatações científicas – e a trama policial da conspiração que envolve o assassinato de cardeais durante o conclave de escolha do novo pontífice.
O filme começa com cientistas no Large Hadron Collider, um laboratório subterrâneo entre a França e Suíça no qual um experimento secreto utiliza um acelerador de partículas para criar antimatéria, o cilindro contendo partículas de matéria instáveis que, se liberadas, causam uma explosão de grande magnitude. Mas o principal da trama se passa em Roma, durante o conclave em que começa um complô para assassinar cardeais e, com a bomba, destruir o Palácio Pontifício.
O ritmo da trama permite entender que os quatro cardeais favoritos à sucessão papal são sequestrados pelos Illuminati, que buscam vingança pela Purga, a condenação e execução de quatro cientistas feita pela Igreja na Idade Média. As cenas transcorrem a partir do enredo de investigação policial regado a cultura histórica medieval, com arquitetura e escultura sacras, necrotérios e ossadas, charadas labirínticas e fórmulas químicas e físicas. Com um sobressalto após o outro, a platéia segue as pistas com Langdon e Vetra, com esculturas e perigos nas paredes e nos tetos de igrejas seculares, que guardam séculos de história da fé cristã.
A novidade só revelada na últimas cenas é que o responsável pelo atentado é camerlengo Patrick Mckenna (Ewan McGregor), padre que administra a Santa Sé durante o conclave, que parece empenhado em evitar a catástrofe – voando sozinho num helicóptero com a bomba até que a explosão não atinja a multidão na Praça de São Pedro e descendo de paraquedas – que gravações do chefe da Guarda Suíça mostram ser, na verdade, o mentor do atentado.
Como publicou o jornal vaticano L’Osservatore Romano, cujo diretor Gian Maria Vian, participou da pré-estreia mundial no Auditorium de Roma, trata-se de uma obra ficção. As proibições, anátemas ou a simples grita dos católicos contra obras de arte têm se mostrado ineficientes como veto e ajudado na divulgação. Assim foi Je vous salue Marie, de Jean Luc Godard, A Última tentação de Cristo, de Martin Scorcese, e O código Da Vinci, do próprio Ron Howard. Ao que parece a assessoria de marketing e de imprensa nem de longe contrabalança com a orientação teológica, com diversas nuances no mesmo discurso.
O filme (policial, com 140 min. e classificado para 16 anos) vai atrair o público, já que a agilidade da narração é melhor que do anterior, o enredo investigativo com cenas de ação e a polarização sagrado-demoníaco atraem, e o fascínio pela Igreja desperta atenção, sobretudo a reação defensiva e, às vezes, ressentida. Langdon é um homem de ciência, mas não chega a ser um iconoclasta. Por não ser raivoso e nem provocador, seu discurso tem certa simpatia.
Tenho dúvidas de que a fita “vai lesar o sentimento religioso”, como disse Marco Fibbi, porta-voz do Vicariato de Roma, após negar à produção a permissão para filmar na Cidade do Vaticano. Possivelmente, tem razão o arcebispo Velasio De Paolis, para quem o boicote pode gerar um efeito bumerangue, despertando mais interesse pelo filme. E uma certeza: se a Igreja manejou a simbólica com exclusividade por séculos, hoje não o faz mais sozinha.
As doutrinas religiosas, em breve, deverão repensar o conceito de família e de ser humano. Um novo paradigma surge e será necessário atualizar seus discursos...
POR SYLVIA MARIA MENDONÇA DO AMARAL
O nosso Judiciário vêm sendo cada vez mais acionado pelos homossexuais em busca de seus direitos. A evolução da sociedade e das famílias alimenta os principais temas julgados e debatidos nos tribunais brasileiros. Um dos pleitos mais comuns do segmento LGBTT, por ser ele o mais elementar, é o de reconhecimento de união estável entre pessoas do mesmo sexo. A obtenção de tal direito é fundamental para que se atinjam outros tantos, dele dependentes. Exemplo disso é o direito de ser tido como herdeiro de companheiro falecido. O reconhecimento da união estável, nesse caso, é imprescindível, já que o parceiro sobrevivente jamais poderá ser herdeiro do outro, sem que lhe seja concedido tal direito, exceto se houver testamento feito em seu benefício.
Porém, enquanto não há consenso entre nossos julgadores sobre a possibilidade de haver ou não união estável entre homossexuais, enquanto são discutidos textos legais ultrapassados por não contemplarem uniões homoafetivas, a sociedade já evoluiu e os casais homoafetivos apresentam anseios e necessidades de maior complexidade.
Recente discussão que exemplifica a tese é a do registro de filhos oriundos de relações homoafetivas. Muitos casais que já vivem uma união mais sólida e estável, apesar de não reconhecida pela lei, partiram em busca de filhos, seja através da adoção ou da inseminação artificial.
Não raro os parceiros homossexuais desejam ampliar suas famílias e utilizam-se dos recursos disponíveis para isso. Os homossexuais masculinos buscam cada vez mais a adoção de crianças e os casais formados por duas mulheres optam, na maior parte das vezes, pela inseminação artificial. É um direito que lhes é assegurado pela Constituição Federal, se partirmos do princípio que seus pilares são, entre outros, o direito à dignidade, liberdade e, principalmente, o direito à igualdade.
O debate torna-se mais complexo e delicado quando a questão envolve crianças nos lares de casais homoafetivos. Os preconceituosos gritam mais alto e o Poder Judiciário titubeia, pois engatinha ainda quando falamos na possibilidade da existência das uniões. Dois casos foram noticiados recentemente pela imprensa, quase que simultaneamente, com resultados não definitivos e diametralmente opostos. Dois casais de lésbicas optaram pela inseminação artificial. Um deles em São Paulo e outro em Santa Catarina, cujo processo foi levado a julgamento perante o Tribunal do Rio Grande do Sul, sempre o mais avançado ao tratar dos direitos homoafetivos.
A questão em ambos os processos é a mesma: os casais buscam registrar os filhos em nome das duas mães. No caso de São Paulo, o pedido de tutela antecipada para registro imediato das crianças dessa forma foi negado em uma primeira fase, mas isso não significa dizer que a causa esteja perdida. O juiz do caso optou por decidir se concederá tal direito às companheiras após obter mais informações. A sentença pode, e espera-se, ser favorável ao casal, já que ainda não houve decisão final.
No caso julgado no Rio Grande do Sul, o casal já alcançou seu objetivo, realizando o desejo de registrar os também gêmeos, em nome de ambas, com o sobrenome das duas companheiras. Por certo, outros casais farão tal pedido a nossos julgadores, sendo que ainda está longe de haver consenso entre eles sobre questão proposta há muito tempo que é o reconhecimento das uniões homoafetivas.
O Judiciário precisa se apressar sob pena de perder o bonde da modernidade. Mas o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul não corre esse risco. Abriu as portas para o casal e para seus filhos gêmeos que poderão, a partir do êxito, vencida a barreira, viver em harmonia, já que finalmente foram vistos como um núcleo familiar que a nossa lei maior diz ser a base da sociedade. Porém, não há texto legal nenhum de nosso país que afirme que tal base seja sedimentada apenas pela família heterossexual. Então, que sejam bem-vindas as novas famílias homossexuais. Que outras portas se abram!
* Sylvia Maria Mendonça do Amaral, advogada especialista em Direito Homoafetivo, Família e Sucessões do escritório Mendonça do Amaral Advocacia, autora do livro "Manual Prático dos Direitos de Homossexuais e Transexuais" e editora do site Amor Legal - sylvia@smma.adv.br
O Vaticano criou um site que se conecta com a rede social Facebook, por meio do qual os internautas poderão enviar cartões virtuais para o papa Bento XVI.
O portal, o www.pope2you.net , vai entrar no ar na próxima quinta-feira (21), conforme informou a emissora de televisão italiana por satélite Sky Tg24. O site foi feito em razão do 43 Dia Mundial das Comunicações Sociais.
Em 2009, o Dia Mundial das Comunicações Sociais tem como lema "Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade".
O portal tem um link no Facebook, em que os usuários poderão enviar e receber cartões virtuais do papa, assim como discursos e mensagens do pontífice, como divulgou a agência dos bispos católicos dos Estados Unidos, a Catholic News Service. Além disso, por meio do site, os internautas vão poder receber notícias em formato de vídeo sobre o Vaticano e o papa, na mesma linha que no YouTube, onde a Santa Sé já está presente.
O objetivo do padre Ksawery Knotz ao escrever o livro Sexo como Você não Conhece - para Casais Casados que Amam Deus foi acabar com as atitudes excessivamente conservadoras de muitos fiéis.
O livro já está sendo chamado no país de "Kama Sutra Católico".
O religioso franciscano explica que sexo no casamento não deveria ser enfadonho, e sim "apimentado, surpreendente e cheio de fantasia".
O livro, que tem o apoio da Igreja Católica da Polônia, é um sucesso de vendas.
A editora Sw. Pawel está preparando mais cópias depois que 5 mil foram vendidas em poucas semanas.
''Kama Sutra Católico''
"Algumas pessoas, quando escutam falar no caráter sagrado do sexo no casamento, imaginam imediatamente que esse tipo de sexo tem que ser desprovido de alegria, brincadeiras e posições atraentes", escreveu o Knotz no livro.
"Cada ato - um tipo de carícia, uma posição sexual - com o objetivo de excitar é permitido e agrada a Deus. Durante a relação sexual, casais casados podem demonstrar o seu amor de todas as maneiras, (eles) podem fazer um no outro as carícias mais desejadas."
Knotz acredita que o sexo é uma forma importante de marido e mulher expressarem o seu amor e ficarem mais perto de Deus.
"Casais casados celebram o seu sacramento, sua vida com Cristo, também durante o sexo", escreveu.
"Chamar o sexo de celebração do sacramento do casamento eleva sua dignidade de uma maneira excepcional. Uma declaração como esta choca pessoas que aprenderam a ver a sexualidade de uma maneira ruim. É difícil para eles entender que Deus também quer que eles tenham uma vida sexual feliz e, por isso, deu a eles este presente."
O padre Knotz ressalta que o livro não diverge da visão da Igreja sobre o sexo. Ele desencoraja o uso de anticoncepcionais, dizendo que "levam um casal casado para fora da cultura católica e a um estilo de vida completamente diferente".
O autor do guia sobre sexo também rejeita o argumento dos que colocam em dúvida a competência de um monge celibatário para escrever sobre sexo. Ele diz que sua experiência vem do aconselhamento a casais casados e da administração de um website que oferece conselhos sexuais há quase um ano.
Em diversos artigos publicados na imprensa local, há um par de anos, discutia-se a cristofobia, definida como a perseguição de cristãos na Suécia. Cristãos seriam fundamentalistas e culpados pelos pecados cometidos em nome de sua fé, ao longo de séculos. São aqueles contra a modernidade, o aborto, as pesquisas com células-tronco. São os símbolos do atraso e da falta de sincronia com o mundo atual. Pessoas menos dotadas, enfim.
Para tomar como exemplo uma questão muito na moda, sobre a qual, aliás, tenho que contar em algum texto futuro, discute-se, no momento, a possibilidade de casamentos homossexuais serem celebrados pela Igreja Sueca. A existência da discussão, com a clara divisão entre os pastores a favor e contra, é citada como um exemplo do que seria a discriminação das igrejas cristãs contra pessoas, baseada na sua identidade sexual.
Mas, alguém perguntava, então, por que será que ninguém pede a celebração de casamentos de pessoas do mesmo sexo nas mesquitas e nas sinagogas?
Aqui, no país do “politicamente correto”, não se fala nada em público contra muçulmanos ou judeus e suas crenças, por exemplo. Discutir religião é visto como “de mau gosto”. Não se discutem o jejum durante o Ramadan ou a recusa ao consumo de carne suína por motivos religiosos. Mas, considera-se ridículo não fazer um churrasco no feriado, “só porque” é sexta-feira da Semana Santa. Coisa de fundamentalista, é claro “!”.
Desenhos publicados na Dinamarca levaram a protestos em todo o Islã. Quem comenta qualquer coisa com relação aos judeus, aqui, só pode ser um nazista que ignora o Holocausto. Mas, falar mal de cristão não representa problema algum.
A gota d’água, que fez o copo transbordar, parece ter sido a crítica pela existência de exemplares da Bíblia, nos quartos dos hotéis de Estocolmo. Alguém, alegando que se sentia constrangido pela presença da Bíblia na gaveta da sua mesinha de cabeceira, solicitou sua retirada. E uma cadeia de hotéis “moderna” aproveitou a deixa para fazer o anúncio de que, a partir daquele momento, não haveria mais “problema”. O livro constrangedor seria retirado de circulação”!”.
A reação não tardou a chegar, com cartas e mais cartas às redações, protestando. Filmes de pornografia disponíveis em circuito interno de TV não ofendem ninguém, tudo bem! Mas “aquele livro”!?
Imagino que seja por essas e outras razões que tenha surgido a ideia da Manifestação por Jesus (Jesusmanifestationen).
No dia 3 de maio de 2008, pela primeira vez, milhares de moradores de Estocolmo saíram às ruas para, em missas, orações, cânticos, cerimônias e palestras, demonstrar sua fé cristã. Em praças e jardins, reuniram-se cristãos suecos e imigrantes, para anunciar as mensagens de Jesus Cristo, em cerca de 20 idiomas diferentes.
Não me pergunte a razão, não me lembro o porquê, mas não estive lá! Perdi a chance? Não.
Neste sábado, 2 de maio de 2009, foi a segunda Manifestação por Jesus em Estocolmo.
Desde cedo, nas diversas praças da cidade, diferentes líderes das mais diversas igrejas cristãs foram os anfitriões. Os católicos nos reunimos na Mynttorget, na cidade antiga, Gamla Stan. Dali, fizemos a caminhada a Kungsträdgården. No Jardim Real foi a concentração, a partir das três da tarde, de todos os manifestantes vindos dos quatro cantos da cidade.
Estocolmo estava bonita, com toda aquela paz e aquela alegria que vêm do “amai-vos uns aos outros”.
Você perguntará: mas manifestar exatamente o que, cara-pálida?
E eu respondo com Paulo: que não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; que nenhum de nós está sozinho, porque somos um em Cristo Jesus. E que você também é bem-vindo.
Abaixo essa tal de Cristofobia!
Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental. Escreve no Blog sempre às segundas e sextas.
Rede de mulheres diz que presidente Lugo é machista
A Coordenação de Mulheres do Paraguai (CMP) repudia, em nota à opinião pública, a “atitude irresponsável e machista do presidente Fernando Lugo”, exige que ele assuma e conserte os seus erros e promova políticas públicas sobre direitos sexuais e reprodutivos.
A conduta do presidente Fernando Lugo reflete a persistência da ordem patriarcal no país, uma vez que ele “é parte de uma cultura de domínio masculino com plena vigência na sociedade paraguaia”, aponta a CMP, alertando que “o poder de um homem não está acima da lei”.
Num Estado laico, arrola a rede feminista integrada por dez organizações, não existem discriminação nem privilégios baseados na religião. A CMP rejeita a “dupla moral” da Igreja Católica, que “discrimina e prejudica as mulheres”.
“A hierarquia católica protegeu a dupla moral reinante, usando o púlpito e seu poder para recriminar e negar os direitos sexuais e reprodutivos das pessoas, protegendo ao mesmo tempo seus próprios membros quando estes levam uma vida sexual irresponsável. É tempo de reconhecer e mudar esta situação”, destaca a nota da rede feminina, enfatizando que só um Estado laico pode garantir os direitos de todas as pessoas, independentemente de seu credo.
A rede manifesta preocupação com estereótipos presentes na sociedade paraguaia, que vêem as mulheres como vítimas desprotegidas, seres incompletos que precisam de um homem que as proteja e como pessoas sujeitas ao domínio masculino. Essa falta de autonomia prejudica as mulheres diante de chefes, caudilhos e poderes da cultura patriarcal, aponta a CMP.